Sábado, Outubro 31, 2009

dia obtuso

fiquei à espera que regressasses desse dia em que escolheste a metamorfose.
pensei que hoje te encontraria para partirmos.
à porta os teus cadernos de palavras esquizofrénicas escritas no auge dos teus delírios (nesses teus momentos únicos de criação e destruição).
dentro da casa o vazio frio de quando tudo se esvai sem que haja tempo. o nada.
no quarto do fundo estavas tu, num mutismo doloroso, de olhar mortificado, vazia como nunca te concebi.

deixei-te assim no teu silêncio e parti só.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

a cidade

é difícil a cidade. os anos passaram e a incredulidade ampliou-se até ao inimaginável. sente-se deslocado daquele mundo em que está mas por contingências das suas responsabilidades de vida adulta já não mais partilha.
os transportes públicos hoje estão mais livres, mesmo assim as pessoas insistem em encolher-se no seu canto (talvez o hábito quotidiano) e que mentalmente agradecem por não ser hora de ponta e por poderem ir sentadas e não ter de tocar nos apoios onde muito eventualmente estará uma bactéria que hipoteticamente será a causadora de uma gripe qualquer; agradecem também decerto pela fraca afluência de gente não lhes trazer o cheiro mal cuidado no final de um dia de trabalho que as faz respirar pela boca, aliás a pseudo-gripe até que vem a calhar e assim se pode usar comodamente uma máscara sobre o nariz sem levantar suspeita ao vizinho do lado. mas o espaço traz inevitavelmente a voz do mendigo (não se atreveria numa outra ocasião), vale tudo pela esmolinha, esquece de guardar o seu telemóvel na mala para que não surjam suspeitas e o copo vai vazio, e a desconfiança cresce. sai numa estação que tão bem conhece mas todas as ruas se modificaram.
os cheiros impuros e poluídos provocam-lhe ardor nos olhos e comichão no nariz. a visão turva pelas lágrimas torna-lhe difícil identificar o sítio para onde pretende ir. as pessoas apressadas, riem alto e parecem felizes. (a pressa que tem, partilha-a com a cidade, foi algo que nunca o deixou desde a sua primeira incursão pela vida citadina. instalou-se-lhe a pressa de chegar, sempre lhe falta o tempo para o que gostaria de ter feito ontem.) os divertimentos antigos pouco lhe dizem, não sabe das exposições ou dos filmes que estão no cinema, não conhece o último videoclip da banda da moda da cultura alternativa, não conhece os bares do momento, não entende os anúncios publicitários amontoados pelas paredes grafitadas e em ruínas. não entende como a vida na cidade se transformou num romance foleiro que leu há anos e que lhe pareceu ridículo e fútil.
pensando melhor procura ir para aquela cidade que encontrou há dois anos. não era mais bonita, não era menos cinzenta, talvez fosse mesmo quase igual ao que é hoje – mas ele era diferente e ele queria fixar-se apenas um momento mais naquela memória solitária onde ele teria menos dois anos de responsabilidades, menos dois anos de preocupações e angústias e mais dois anos de sonhos.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

dispensário

não conseguia parar. os livros espalhados eram obsoletos. as ideias saltitavam, fervendo os pensamentos. o conjunto dos sons era um ruído estranho e indigesto – pum pum as colheres de pau e os almofarizes tlim tlim os copos e os pratos pri pri chhh as tampas dos tachos… et voilá as especialidades. o gourmet, o clássico, o moderno, a fusão ou a cousine mondiale foram suprimidas pela originalidade. depois a inovação seria impossível. depois o caminho seria esse – por entre pratos até encontrar o lugar ideal para se manter viva, onde seria apreciada pela sua singularidade.

sentou-se e arrumou todas as ideias em frascos. o sucesso, a criatividade, a inteligência, os impulsos ficaram arrumados no fundo da dispensa. Apenas ficou pairando um persistente e agradável cheiro a maçã.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

ensaio

depois de chegarmos
nada mais há para acontecer.
descansaremos apenas
no tempo que nos resta.

recordamos

assim ancorados nas memórias
que pensávamos existir em nós
vamos ensaiando a despedida,
àqueles outros que um dia fomos,

com tristeza.

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

trilhos

desde o último passeio vai o tempo de uma gravidez. uma gravidez sombria e desagradável. talvez até podre.

a sensação de que o tempo nos deixa é uma ilusão que serve de desculpa para tudo, sobretudo para o que se podia ter feito. permanece-se parado imaginando a infinitude. pasma-se com o passar das horas.

será que haverão mais passeios ou os todos os caminhos foram trilhados?

o branco ou o vazio ou a pressa

senta-se – à sua frente o espaço em branco, todo o espaço branco para escrever, preencher com palavras, com desenho, pinturas, números com ou sem sentido.
fica um pouco mais. o vazio do espaço não é mais do que o seu reflexo. Se conseguisse ao menos imaginar uma palavra, mesmo de duas letras só, seria o suficiente para que tudo recomeçasse.
nos últimos tempos tinha vivido um enxame de emoções. tomaram conta dele deixando-o num estado de euforia invulgar, as emoções rodopiaram zumbindo lá dentro e zombando da sua pressa. um dia desejou que queria ser, fazer, saber o mesmo que um sábio e velho homem. tinha medo que um dia já não houvesse tempo. tinha medo de ser confrontado com a (sua) vida e sentir-se perder. sabia que ia perder. a sua sede de sentidos e emoções complexas, inspiradoras, para a sua vontade de artista não concretizada, fora saciada. estava agora inerte e incapaz de reagir. naquele momento a ideia seria libertadora mas não acontecia. não conseguia exprimir-se. nem a dor que sentia tomava forma de letra.


a agonia do branco vai chegando devagarinho, esmagando-o.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

ontem, hoje e amanhã

admira-me ainda hoje como tempo me deixou.

hoje dizem que já sou uma pessoa adulta. já não estudo unicamente mas também trabalho e recebo dinheiro por isso. umas vezes sorrio porque gosto do que fiz, outras inunda-me a revolta por ir contra mim na escolha que não foi escolha de um emprego que não se encontra com o desejo.

a vida faz-se de casa para o emprego. os colegas falam dos filhos e do dia do seu casamento. sinto-me num livro de escrita e sentimentos light, mas também quem sou eu para julgar as vidas que se cruzaram comigo?

as pessoas morrem à minha frente sem piedade. e ali fico a vê-las deixarem uma vida de que há muito já desistiram. sinto-me inexperiente e impotente perante tudo.

quero voltar. quero voltar para o passado mas ao mesmo tempo tenho os pés num sítio que me parece um futuro longínquo. os meus pensamentos ocupam-se sobre que frigorifíco será mais eficiente e mais barato, sinto-me vulgar.

quase esmoreceu a vivência mais ou menos feliz dos dias. em que os sonhos me enchiam as ideias e este futuro era ainda mais distante.

luto diariamente para que seja diferente. mas sinto-me ser a pessoa que morre todos os dias um pouco mais, já sem esperança e capacidade de lutar contra "isto" que não quero e que me metastiza o corpo e alma como um tumor maligno e destrói toda aquela poesia.

Sexta-feira, Junho 29, 2007

felicidade de PVC

é no amargo que sorrio. cansado já da facilidade dos dias. a facilidade do consumo de uma emoção rápida e instantânea, como se nada houvesse para além do instantâneo. apesar de tudo, o imediato é o que sabe melhor. achamo-nos bons, mesmo bons quando conseguimos rir quando todos riem… que pode haver mais que nos preencha?
cansado, estou cansado da pseudo-intelectualidade. do acreditar que noutro lugar será melhor, porque o nosso canto esgotou a novidade e porque aí todos os outros ficaram parados no tempo menos nós que entrevemos a possibilidade de evoluir noutro lugar… onde tudo será moderno e inovador.
a comida mastigada que me põem todos os dias no prato, enerva-me tal como a pressa com que me obrigam a comer e servem outro e outro e outro…em série. como se fossemos todos máquinas, com as mesmas necessidades, os mesmos gostos e ambições.
servem-nos a felicidade de PVC e todos sorriem – ou não fosse o melhor que nos podia acontecer!